Uso indiscriminado de esteroides anabolizantes atinge jovens, atletas e praticantes de musculação; CFM proibiu prescrição para fins estéticos em 2023
As vendas de medicamentos anabolizantes no Brasil aumentaram 670% entre 2018 e 2023, saltando de 1.096.850 unidades comercializadas para 7.355.726 unidades, segundo dados levantados pelo jornal Valor junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O crescimento exponencial preocupa autoridades de saúde, que alertam para os graves riscos cardiovasculares, hepáticos e psiquiátricos associados ao uso indiscriminado dessas substâncias, especialmente entre jovens e praticantes de atividades físicas.
O Que São os Anabolizantes e Por Que o Consumo Cresce Tanto?
Os esteroides anabolizantes são versões sintéticas do hormônio testosterona e substâncias relacionadas, frequentemente utilizadas para aumentar o tamanho muscular e a força. De acordo com o Manual MSD de Saúde, aproximadamente 6% dos homens e 2% das mulheres em todo o mundo usam ou abusam dessas substâncias, com estimativas semelhantes para os Estados Unidos.
No Brasil, o fenômeno é impulsionado pelo que especialistas chamam de "culto ao corpo". Um em cada 16 estudantes brasileiros já utilizou anabolizantes, e o aumento no uso entre jovens do ensino médio chegou a 84% desde 1996, segundo dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Muitos desses usuários são adeptos do fisiculturismo, esporte em que os atletas são avaliados pela simetria, volume e tamanho do corpo.
Efeitos Colaterais Graves: Do Coração à Saúde Mental
O uso indiscriminado de esteroides anabolizantes pode causar uma série de complicações graves. A endocrinologista Elaine Maria Frade Costa, da Universidade de São Paulo (USP), explica que os usuários costumam ingerir doses de cinco a 15 vezes maiores do que as prescritas por médicos para reposição hormonal.
Entre os principais riscos à saúde, destacam-se:
- Problemas cardíacos: hipertrofia ventricular, insuficiência cardíaca, arritmias, infarto do miocárdio e AVC;
- Alterações metabólicas: resistência à insulina, diabetes tipo 2, policitemia e maior risco de trombose;
- Danos ao fígado: hepatite medicamentosa, cirrose e tumores hepáticos;
- Distúrbios hormonais: infertilidade, disfunção erétil, ginecomastia em homens e virilização em mulheres;
- Efeitos psicológicos: irritabilidade, agressividade, paranoia, depressão e dependência química.
"Da mesma forma que aumenta a massa muscular do braço ou da perna, aumenta o coração também", alerta a especialista da USP. Além disso, o aumento da produção de glóbulos vermelhos eleva a viscosidade do sangue, facilitando a formação de coágulos.

Regulamentação no Brasil: CFM e Anvisa Apertam o Cerco
Em 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução nº 2.333/23, que proibiu a prescrição médica de anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhoria de desempenho esportivo. A medida foi tomada após pedido conjunto de sociedades científicas, incluindo a SBEM, Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e outras.
A prescrição só é permitida em casos de deficiência hormonal comprovada, como hipogonadismo, puberdade tardia, caquexia e terapia hormonal em pessoas transgênero. A Anvisa, por sua vez, intensificou a fiscalização e, em 2025, proibiu a comercialização de 30 produtos da marca Landerlan, incluindo anabolizantes como Trembolona, Durateston e Oxandrolona, por falta de registro sanitário.
A venda de todo medicamento anabolizante exige prescrição médica e retenção de receita, conforme a legislação brasileira. No entanto, o mercado clandestino continua ativo, representando uma parcela significativa do consumo não contabilizado nos dados oficiais.

Doping no Esporte: O Lado Profissional do Problema
O uso de esteroides anabolizantes no esporte de alto rendimento é um problema global. Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, pelo menos 120 atletas que competiram já haviam sido suspensos anteriormente por doping, segundo levantamento do The New York Times. O escândalo de doping da Rússia, que resultou em sanções severas contra o país, é um dos casos mais emblemáticos da última década.
A professora Gabriela Marques Cadeo, graduada pela Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP-USP), destaca que "algumas pessoas estão dispostas a pagar o preço que o anabolizante traz, muitas vezes um desempenho superior e que te faz chegar a posições que naturalmente seria impossível chegar, mas o consumo do produto cobra o preço na saúde do atleta, podendo diminuir até mesmo a expectativa de vida".

Contexto Histórico: De Substância Medicinal à Droga do Corpo
Os esteroides anabolizantes foram sintetizados pela primeira vez na década de 1930, inicialmente para fins terapêuticos, como o tratamento de hipogonadismo e a prevenção da perda de massa muscular em pacientes com queimaduras graves, câncer ou infecção pelo HIV. No entanto, a partir da década de 1950, atletas de halterofilismo e atletismo começaram a utilizar essas substâncias para melhorar o desempenho esportivo.
A Agência Mundial Antidoping (WADA) foi criada em 1999 justamente para combater o uso de substâncias proibidas no esporte, incluindo os esteroides anabolizantes. Desde então, a lista de substâncias proibidas é atualizada anualmente, e os testes de doping se tornaram cada vez mais sofisticados, capazes de detectar traços de anabolizantes na urina por até seis meses após o uso.
Desdobramentos e Alertas das Autoridades
Diante do cenário alarmante, especialistas preveem um aumento nos casos de doenças cardiovasculares prematuras entre jovens usuários de anabolizantes nas próximas décadas. O professor Hugo Tourinho Filho, da EEFERP-USP, reforça que "não só no fisiculturismo, mas de forma geral, o culto ao corpo faz com que pessoas utilizem os anabolizantes, que são substâncias que não devem ser usadas sem supervisão médica rigorosa".
O Ministério da Saúde, por meio da Biblioteca Virtual em Saúde, alerta que o uso de anabolizantes para fins estéticos ou de aumento de rendimento esportivo é proibido e representa um grande risco para a saúde. A SBEM e outras sociedades médicas vêm se unindo em campanhas de conscientização para combater a desinformação que circula nas redes sociais e academias.

Declaração de Especialistas
Conclusão: O Preço da Estética
O crescimento vertiginoso do consumo de anabolizantes no Brasil reflete uma sociedade cada vez mais obcecada por padrões estéticos irreais, muitas vezes disseminados pelas redes sociais. No entanto, os dados alarmantes de vendas e os inúmeros relatos de danos à saúde demonstram que não há atalho seguro para a conquista de um corpo atlético.
A proibição do CFM e as ações da Anvisa representam passos importantes, mas a educação e a conscientização continuam sendo as armas mais eficazes contra o abuso dessas substâncias. Especialistas recomendam que qualquer busca por melhoria da performance física seja feita com acompanhamento médico rigoroso, dieta balanceada e treinamento supervisionado — longe dos riscos mortais dos esteroides anabolizantes.
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Fontes e Referências
- Valor Econômico — "Anabolizantes: Vendas aumentam 670% no Brasil em cinco anos" (13/04/2024)
- Jornal da USP — "O culto ao corpo leva cada vez mais jovens ao consumo de anabolizantes" (23/08/2024)
- Manual MSD — "Esteroides anabolizantes — Saúde masculina" (2025)
- Ministério da Saúde / Biblioteca Virtual em Saúde — "Anabolizantes"
- Conselho Federal de Medicina (CFM) — Resolução nº 2.333/23
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — Dados oficiais de vendas
- Portal da Urologia / SBU — "Riscos urológicos do uso de anabolizantes"
- Jornal da USP / Rádio USP — "Uso excessivo de anabolizantes pode causar trombose, hipertrofia do coração e hepatite" (25/04/2023)
- Unicardio — "Os riscos do uso indevido de esteroides anabolizantes" (20/06/2025)
- The New York Times — "At Least 120 Athletes at the Rio Olympics Were Previously Suspended for Doping" (18/08/2016)